domingo, 10 de setembro de 2017

Assim nasceu Portugal de Domingos Amaral

     Opinião: Este terceiro livro da trilogia Assim nasceu Portugal termina com a entrada de D. Afonso Henriques em Lisboa depois da sua vitória sobre os mouros que, até então, dominavam a cidade.  Todos sabemos da importância histórica deste facto na construção da autoridade e da legitimação da imagem do nosso primeiro rei face a quem não queria reconhecer Portugal como um reino autónomo: seu primo rei de Leão e o Papa Alexandre III. Se o Tratado de Zamora é de 1143, a bula papal só chega em 1179, anos depois da conquista da cidade em 1147. Mas isto são factos históricos que todos nós sabemos ou devíamos saber.
     No entanto, neste livro, Domingos Amaral faz mais do que nos dar uma visão da nossa história. Este livro não é sobre reis, ou sobre um rei. Este livro é sobre homens e mulheres que viveram tempos conturbados, onde o poder se podia contar em território conquistado.
   Mas Domingos faz mais. Domingos Amaral, através do seu narrador, Lourenço Viegas, filho primogénito de Egas Moniz, e amigo de D Afonso Henriques, dá-nos a imagem de um homem que quer honrar os seus ideais, as suas crenças e o seu progenitor o Conde D. Henrique. Neste livro o nosso primeiro rei não é um herói. É um homem, com convicções e contradições, amores e desamores, amigos e interesses e que conquista, mas também falha. Afonso Henriques aparece como alguém que vive num tempo difícil, tentando fazer de um pequeno condado o seu país, o nosso país, sem nunca esconder do leitor os seus sentimentos.
     Os conquistadores de Lisboa, assim se chama este terceiro volume, é um livro ilustrativo de um tempo em que as personagens são homens e mulheres com os mesmos sentimentos que nós e com as dificuldades inerentes ao seu tempo. Estes homens e estas mulheres vivem com as intrigas, as glórias e as derrotas e, mesmo quando aparentemente tudo pode desmoronar, tentam manter a sua fé na vida, nos seus amigos e em si próprios. Determinados conseguiram superar as fraquezas e tornar este pedaço à beira mar plantado num reino autónomo por direito próprio.
     Muito bem escrito, com uma investigação histórica apurada, o autor cria uma sociedade à época não esquecendo nunca que se tratava de seres humanos. Importante de referir o papel das mulheres neste livro. Num tempo em que aparentemente estas tinham um ligar secundário face aos homens, aqui, Mafalda, Chamoa e Zaida são peças tão importantes neste tabuleiro que, algumas vezes acabam por condicionar as opções do rei e daqueles com quem convivem mais ou menos de forma intima. Continuo a achar que a construção destas personagens e dos seus movimentos e atitudes são feitas de forma brilhante, dando a dimensão da importância das relações amorosas nos jogos políticos da época.
     O autor vai ainda buscar, como pano de fundo dos acontecimentos históricos, a célebre polémica quanto à hipótese de D. Afonso Henriques não ser o filho de D. Teresa e do Conde D. Henrique. Interessante como elemento que permite desenvolver a intriga, e que leva Chamoa e Lourenço Viegas a uma aturada investigação. Hoje, na minha opinião, este é um boato sem importância. Como afirma o rei foi ele quem fez as conquistas, foi ele quem elevou o condado a reino e como tal, é ele que merece o reconhecimento. Claro que o autor resolve esta questão, dando-nos a sua opinião de uma forma coerente e plausível.
     Por todas estas razões, e fundamentalmente pelo prazer que é ler este livro, esta trilogia termina de forma brilhante, com a conquista de Lisboa. Agora, meu caro, Domingos Amaral, falta o além-Tejo. 


     Sinopse: E se D. Afonso Henriques não fosse filho de D. Teresa?
      Incapaz de vencer Afonso Henriques nos campos de batalha, o seu primo direito e imperador da Hispânia, Afonso VII, lança contra ele uma intriga infame. Nascido com deficiências nas pernas e aleijadinho, Afonso Henriques teria sido trocado à nascença por outro menino. Assim, o verdadeiro filho do conde Henrique e de Dona Teresa não é o usurpador que usa o seu nome, mas talvez um dos filhos de Egas Moniz, que terá inventado um milagre de Nossa Senhora para encobrir a sinistra troca das crianças.
A primeira a conhecer esta tenebrosa malícia é Chamoa Gomes, eterna paixão de Afonso Henriques, que por amor começa a investigar a história, ao mesmo tempo que Egas Moniz e outros notáveis portucalenses a tentam afastar da corte, pois não querem que ela seja a primeira rainha de Portugal.
     Ao longo de sete anos, Chamoa Gomes e Lourenço Viegas, o filho mais velho de Egas Moniz e narrador da história, vão tentar descobrir o que passou trinta e tal anos antes, aquando do nascimento de Afonso Henriques e também no dia da morte de seu pai, o conde Henrique.
     Enquanto o mistério se adensa, o reino de Portugal cresce no norte e no sul, em lutas permanentes contra os leoneses de Afonso VII e os muçulmanos da Andaluzia. Apesar de falhada uma primeira tentativa de tomar Lisboa aos mouros, Afonso Henriques é reconhecido rei em Zamora, casa com Mafalda de Sabóia e conquista ainda a cidade de Santarém. Mas é só durante o segundo cerco a Lisboa, durante o qual os portucalenses contam com a fundamental ajuda dos cruzados vindos do Norte da Europa, que a vil intriga de Compostela se virá a esclarecer.